Uma obra que transpassa o sofrimento do Japão pós segunda guerra mundial
Diferente de muitos filmes hollywoodianos que abordam esse tema trazendo uma espécie de enaltecimento e glória ao lado do vencedor, o filme "O Túmulo dos Vagalumes" impacta o espectador pela exposição fria da devastação de uma guerra que assolou o Japão em meados de 1945. A animação foi lançada em 1988 e dirigida pelo falecido diretor e co-fundador do Studio Ghibli, Isao Takahata, muitos críticos apontam como uma das melhores retratações da guerra numa obra animada e também um dos enredos mais sombrios do estúdio.
火垂るの墓;
Hotaru no Haka" ou "O Túmulo dos Vagalumes", em tradução oficializada
para o português brasileiro, retrata a colocação do povo japonês perante
uma de suas maiores e mais recentes cicatrizes: a Segunda Guerra
Mundial. No filme, acompanhamos a trágica história do jovem Seita e sua
irmã caçula, Setsuko. Ambos lutam com todas as forças para (sobre)viver
em meio ao desastre que assola a região de Kobe em 1945. A obra de
maneira alguma é presunçosa, contrapõe em diversos momentos a moral e
os ideais existentes na sociedade da época, sempre em oposição à miséria
e ao abandono sofrido pelos protagonistas. Foi de certo modo chocante
como esse descaso pela miséria alheia acontece justamente por uma tia
das crianças, um parente próximo que se presume o oferecimento de ajuda.
Refletindo sobre conexões entre a língua e mitologia japonesa com o título e cartaz da obra, podemos elencar um simbolismo preciso, poético e melancólico a cerca das escolhas das palavras. O kanji de vagalume é 火垂 (Hotaru), que se desmembrarmos a palavra é possível identificar o símbolo do fogo 火 (Hi). Quando olhamos atentamente um dos cartazes do filme, é possível notar que no céu está passando um Boeing B-29 (avião bombardeiro dos Estados Unidos) e está lançando bombas incendiárias. Essas bombas se mesclam com as luzes dos vagalumes ao qual Seita e Setsuko estão interagindo. Para tornar essa composição ainda mais artísticas, os vagalumes estão associados ao mito do hitodama (人魂). Hitodama são a manifestação das almas humanas que vagam pelo mundo, representadas por um pequeno foco de luz ou chama. Esse mito se conecta com a obra quando vemos no final do filme a alma de Seita vagando pelo Japão moderno.
O acabamento dos traços, o interessante jogo de luz associado à delicadeza dos vagalumes e a destruição das bombas, explosões e labaredas, a sonoplastia da obra e o recurso literário do relato, pois é Seita que nos conta como ele morreu, contribuem para uma imersão emotiva e sensível da história. Além disso, a obra tem como base a própria vida de Nosaka, compartilhando também as suas próprias experiências, tais como, a perda do seu lar, a morte dos seus familiares por queimaduras graves, a procura por comida escavando restos de escombros queimados e a suas lindas lembranças sobre vagalumes. Apesar de ser conhecido mais pelo filme de animação, Hotaru no Haka foi publicada inicialmente como um conto semi-autobiográfico do autor.
É possível ver no Youtube, depoimentos de sobreviventes desse episódio tão trágico. Em 9 de agosto de 2018, um sobrevivente de 88 anos, Sr. Kyoshi, deu um relato sobre o momento que caiu a bomba na província de Nagasaki. Em resumo é dito no vídeo:
“Aos 5 anos de idade, estava com a minha família em casa. Éramos em 7 pessoas. Eu, meus pais e minhas 4 irmãs. Quando caiu a bomba, eu vi um enorme clarão e depois seguiu com vários barulhos de coisas sendo destruídas.”, relatou. Ele disse também que viu as 4 irmãs sendo atingidas pelo impacto, elas brincavam no quintal quando aconteceu a explosão. Mesmo depois de 70 anos, o Sr. Kyoshi reza todos os dias pelos familiares que morreram na guerra. Ele possui um pequeno altar em sua casa onde coloca as fotos dos seus familiares, como é de costume da religião xintoísta.



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